Radioterapia interna com ítrio-90 amplia sobrevida em câncer de fígado, aponta maior estudo do mundo real
Pesquisa com quase mil pacientes em 34 centros na França mostra ganhos consistentes de sobrevivência e reforça papel da dosimetria personalizada no tratamento do carcinoma hepatocelular

Imagem: Reprodução
Um dos maiores estudos já realizados em condições reais de prática clínica sobre o tratamento do carcinoma hepatocelular (CHC) — o tipo mais comum de câncer de fígado — aponta que a radioterapia interna seletiva com microesferas de ítrio-90 (Y90) pode prolongar significativamente a sobrevida dos pacientes, com perfil de segurança considerado aceitável. Os resultados fazem parte do estudo PROACTIF, publicado nesta sexta-feira (17), na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, e analisam dados de 989 pacientes tratados em 34 centros na França entre 2019 e 2024.
Coordenado pelo médico francês Boris Guiu, do Hospital Saint-Eloi, em Montpellier, o trabalho reúne uma das mais robustas evidências do chamado “mundo real” — ou seja, fora das condições controladas de ensaios clínicos randomizados. “Os dados confirmam que, com seleção adequada de pacientes e uso de dosimetria personalizada, é possível alcançar benefícios clínicos relevantes em todos os estágios da doença”, afirma Guiu no artigo .
Sobrevida acima de 20 meses
O estudo teve como principal indicador a sobrevida global dos pacientes após o tratamento com microesferas de vidro carregadas com ítrio-90, administradas diretamente no fígado por via arterial. O resultado médio foi de 21,8 meses, com variações conforme o estágio da doença. Pacientes em estágios intermediários (BCLC B) atingiram mediana de 27 meses, enquanto aqueles em estágio avançado (BCLC C) chegaram a 21,1 meses .
Um dos achados mais expressivos diz respeito aos pacientes que, após a terapia, se tornaram elegíveis para cirurgia — algo inicialmente inviável. Nesse grupo, a sobrevida mediana saltou para 48,6 meses, mais que o dobro dos 20,1 meses observados entre os que não passaram por procedimento cirúrgico .
Segundo Etienne Garin, coautor e pesquisador do Centre Eugène Marquis, em Rennes, “a possibilidade de converter casos avançados em candidatos à cirurgia representa uma mudança importante na estratégia terapêutica do câncer hepático” .
Dose importa — e muito
Outro ponto central do estudo é a relação direta entre a dose de radiação absorvida pelo tumor e a sobrevida dos pacientes. Aqueles que receberam menos de 200 Gy tiveram mediana de 16,8 meses, enquanto os tratados com doses iguais ou superiores a 400 Gy alcançaram 30,7 meses .
“O efeito dose-resposta foi claro e consistente. Quanto maior a dose no tumor, melhor o desfecho clínico”, destaca o artigo. Essa constatação reforça a importância da chamada dosimetria personalizada — técnica que ajusta a radiação de acordo com as características individuais do tumor e do fígado.
Esse avanço representa uma evolução em relação às abordagens mais antigas, que utilizavam doses padronizadas. Desde a década de 2000, a terapia com Y90 já era empregada na Europa e nos Estados Unidos, mas apenas recentemente passou a incorporar estratégias mais individualizadas, impulsionadas por estudos como o DOSISPHERE-01 .
Segurança e qualidade de vida
Além da eficácia, o PROACTIF também avaliou segurança e qualidade de vida — aspectos essenciais em tratamentos oncológicos. Eventos adversos graves ocorreram em 7,5% dos pacientes, sendo apenas 3,7% relacionados diretamente ao tratamento .
Entre as complicações mais comuns estão ascite, hemorragia gastrointestinal e encefalopatia hepática, mas a incidência foi considerada baixa em relação à gravidade da doença. “O perfil de segurança foi consistente com estudos anteriores e reforça a viabilidade do tratamento em larga escala”, aponta o estudo .
Já a qualidade de vida apresentou deterioração mediana após 10,6 meses — um indicador relevante em pacientes com doença avançada .
Contexto e desafios
O carcinoma hepatocelular é uma das principais causas de morte por câncer no mundo, frequentemente associado a cirrose hepática, consumo de álcool e hepatites virais. Tradicionalmente, o tratamento depende do estágio da doença, variando de cirurgia e transplante até terapias sistêmicas e locorregionais.
Apesar do uso consolidado da radioembolização com Y90, diretrizes internacionais ainda são cautelosas quanto à sua aplicação em estágios mais avançados. Parte dessa resistência decorre da escassez de ensaios clínicos randomizados — considerados padrão-ouro da medicina baseada em evidências.
No entanto, como ressaltam os autores, esse tipo de estudo enfrenta obstáculos éticos e metodológicos. “A própria natureza terapêutica da técnica, com clara relação entre dose e resposta, dificulta a randomização tradicional”, explicam .
Impacto e futuro
Para especialistas, os resultados do PROACTIF podem influenciar futuras recomendações clínicas e ampliar o uso da radioembolização como alternativa terapêutica. “Este é um dos conjuntos de dados mais completos já produzidos e deve servir de base para revisões de diretrizes”, avaliam os pesquisadores .
O estudo também reforça a tendência de personalização no tratamento do câncer — uma abordagem que busca adaptar terapias às características biológicas e clínicas de cada paciente.
Embora ainda sejam necessários novos estudos, especialmente comparando a técnica com terapias modernas como imunoterapia, o PROACTIF consolida a radioembolização com Y90 como uma ferramenta relevante no arsenal contra o câncer de fígado.
Em um cenário de alta mortalidade e opções limitadas, os dados trazem uma perspectiva concreta de avanço — ainda que gradual — no enfrentamento de uma das doenças mais desafiadoras da oncologia contemporânea.
Referência
Eficácia e segurança da radioterapia interna seletiva com microesferas de vidro contendo ítrio-90 para o carcinoma hepatocelular: resultados do mundo real da coorte prospectiva multicêntrica PROACTIF com 989 pacientes.
eClinicalMedicineVol. 95 103884 Publicado em: 17 de abril de 2026. O Grupo de Investigadores do PROACTIF. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103884